Eu sou preconceituoso, fazer o que?

Uma campanha publicitária veiculada há um tempo atrás perguntava: “Onde você guarda o seu preconceito?”. Esse tipo de pergunta costuma incomodar a nós, seres humanos, reles mortais, pedaços de carne em constante putrefação, latrinas cheias de m.. (ops!) defeito. Pois bem, eu não tenho medo de dizer... (respiro fundo.. um.. dois.. três..). Sou preconceituoso. Isso mesmo PRECONCEITUOSO. Tenho sérios problemas com lugares chiques. Se a quantia cobrada para entrar no local tiver mais de dois dígitos, aquilo bate no meu subconsciente e eu travo completamente. Me visto de uma armadura preconceituosa, anti-chiqueza difícil de ser quebrada.

Difícil, mas não impossível. Sou o tipo acostumado a tomar cerveja em boteco sujo. Bar barato, com cerveja de marcas nunca antes vistas e comida com microorganismos de nomes complicados. Sou assim, fazer o que? Radiola de ficha e Seu Biu da cerveja fazem minha noite.

Pois, eis que com todo esse backfround franciscano no quesito bar, fui convidado a trocar a radiola de ficha por um “Disc-Jokey”, as havaianas por um Nike, a camisa de político e a bermuda surrada por calça jeans e uma “chemise” de marca famosa, emprestada por um amigo. Traí seu Biu da cerveja e fui à boate mais famosa da cidade, reduto dos futuros herdeiros de sobrenomes elegantes.



Logo na entrada, a existência de duas filas distintas me chamou a atenção. O comentário de uma menina que passava na hora tirou minha dúvida: “Duda, essa é a fila V.I.P (pronunciado in english)”. Descobri que deveria entrar por essa fila. Tentei, tentei, eu juro que tentei, mas não consegui não achar aquela coisa da fila v.i.p um grande nonsense. Mas tudo bem. “Tente ver a coisa pela ótica deles”, dizia meu grilo falante. No caixa, uma mulher sorridente me disse que por eu ser um v.i.p eu não pagaria para entrar. Ao invés disso, aquele valor absurdo seria revertido em bebida (!!!) Aí as coisas começaram a melhorar. Meu fígado sorriu e comecei a achar aquela história toda de boate uma nice. Dei um rasante, fixei meus olhos no bar, e fui adiante. Só conseguia pensar na quantidade estratosférica de teor alcólico que meu corpo iria receber. Estava tão feliz que nem notei quando outra mulher de sorriso frenético me disse o valor da cerveja. Fiz questão de inocentemente repetir que só queria UMA, UM (1), VALOR UNITÁRIO de cerveja, e ela, insistentemete, repetiu que aquele era mesmo o valor. Fiz um cálculo rápido e percebi que a quantidade de cerveja que eu havia imaginado, se reduziria a quase 1/3. Pois é, eu devia ter acreditado naquele famoso ditado que fala sobre quão pouco pode durar a alegria.

Fui adiante. Nada me impediria de me divertir naquela noite. Até que começou a tocar aquela música. Aquela mesmo que as rádios não cansam de tocar, as pessoas não cansam de cantar e não me canso de odiar. Eu tentei, eu juro que pela segunda vez eu tentei não ser preconceituoso, mas não deu. Esperei a música parar de tocar, imóvel. Ela acabou. Tentei me animar, esqueci da música, coloquei meu olhar 43 para funcionar e me danei a imitar os passos de um grupo que dançava perto de mim. Foi quando uma menina olhou pra mim, eu respondi. Me aproximei. Ela fazia movimentos esquisitos com a cabeça. Tentei olhar melhor para descobrir se aquilo era parte da dança. Ainda não sei. Ela me olhava dos pés a cabeça, num movimento repetido. Parecia um escaner humano. “Será que é assim que as pessoas paqueram aqui?”, me indaguei. O pensamento foi interrompido por uma pergunta:

- É Fause Haten né?

- Não entendi

- Fause Haten, sua camisa.

- É? Não sei, é de amigo, ele me emprestou. Não sou muito bom com nome de estilista

- Ah tá...

Antes que eu pudesse engatilhar minha pergunta, ela fez cara de poucos e amigos e saiu. Pela terceira vez eu tentei, me esforcei, lutei contra mim mesmo... inutilmente. Meu pensamento preconceituoso concluiu coisas horríveis sobre ela. Quis amenizar. Imaginei que ela tivesse namorado, que não tivesse gostado do meu perfume, que tinha achado esquisito meu jeito de dançar.... inutilmente. “Futil. Futil. Futil”, meu pensamento repetia.

Tentei me animar mais uma vez. Abri um sorriso. Igonorei o papo sobre academia dos caras que tavam do meu lado, ignorei o fato de um deles ter chamado de vadia uma menina que não respondeu uma cantada pífia, ignorei o fato de que a roupa deles era incrivelmente parecida com a da novelinha teen das 17h, Ignorei tudo isso. Eu estava ali para me divertir.

Lá pela terceira cerveja fui ao banheiro. Devido a acústica do lugar e a minha incasável curiosidade, não pude evitar de ouvir a conversa alheia que vinha do lado de fora do box.

- Tô com o peugeot 206 otário!

- Grande merda. Já falei com meu pai e no meu aniversário ele vai me dar um Civic.

- Porra. Se garantiu hein? Completo?

- Lógico né?!

- Paulinho trocou o Civic por um Eclipse novinho!

- Eu vi porra, bonito demais!

Enquanto eu dava descarga, eles iniciavam um papo sobre a parte mecânica dos carros, ainda tentando descobrir quem tinha a melhor máquina. Saí do banheiro achando aquele papo todo muito estranho.

Esbarrei com uma amiga dos tempos de colégio, ela perguntou se eu não queria ir para o “Lounge” para conversamos melhor. Aceitei.

- E aí Paula o que tens feito?

- Tô estudando fisioterapia e você?

- Tô estudando jornalismo e trabalhando basicamente com fotografia e animação.

- Animação, como assim?

- Animação... vídeo.. stop motion..

- Anh?!

- Nemo, Srhek, A Fuga das galinhas.... Cinema??

- Ah tah! Entedi. (risos frenéticos) Eu ADORO cinema! Você ja viu “Premonições”?

Quis ter uma crise de riso, achei mais prudente guardá-la e respondi.

- Não, ainda não vi.

- É ÓÓÓÓTIMO!

Interrompi o papo ali. Dei uma desculpa esfarrapa e saí de fininho. Enquanto descia as escadas, conclui que se quisesse me divertir ali, deveria abstrair tudo aquilo, entrar numa espécie de estado de nirvana às avessas, apertar o OFF.

E foi isso que fiz. Lembrei das lições de Seu biu da cerveja, tomei duas doses de tequila e forcei o pensamento para ser menos analítico. Decidi entrar na onda. Desliguei meu consciente crítico. Estava disposto a conversar sobre o meu carro e me vangloriar sobre como foram minhas férias no exterior. Até mentiria. Dali em diante eu seria “Ricardinho Montpellier”, filho de Ministro e estudante de direito.

Nem precisei ir tão longe. Na terceira dose de tequila, já estava com as idéias frouxas e Aquela batida chata e repetitiva começava a soar prazerosamente como um solo jazzistico de Miles Davis. A quarta dose veio acompanhada de uma vertigem gostosa e da certeza de que, sim! eu estava me divertindo. Curti aquela “vibe” por mais algumas horas, balançando-me na embreaguez da minha diversão. Abstrai tudo. Desliguei as conexões neurais. Virei autista por opção. Descobri que é esse o grande segredo para se divertir nesse tipo de lugar.

E Descobri que sou um quase playboy.

3 comentários:

  1. Laura disse...

    Fause Haten? Isso dá barato?

    Eu preciso ir pra um lugar desses um dia. A única experiência que tive próxima a isso foi a vez que fui a uma festa de aniversário que parecia mais o comitê de Mendoncinha...  

  2. guara disse...

    naaaaaaaaaaaaaaaaaoo!!!
    existe fazer isso, meu?!
    tive mnha época de divertimento com tequilas, mas passou. a juventude se retarda em lugars assim
    ;*  

  3. guara disse...

    atualizaaaaaa  


 

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